O que não se estava bem a perceber era como poderia o CDS crescer com o PSD a crescer também. Em termos gerais, quem vota à esquerda, não vota no CDS, portanto não seria à esquerda que o CDS iria buscar votos, mas sim à direita, isto é, ao PSD. Mas com um CDS com 13-15% dos votos, o PSD esvaziaria e o PS teria boas hipóteses de ganhar. Pois é, mas a deslocação de votos foi do PS para o PSD e do PSD para o CDS. O PS tem sempre por adquirido 28-30% e foi por esses mínimos que se ficou. E só não desceu abaixo disso, porque a malta da esquerda não gostou da viragem do Bloco à direita e decidiu penalizá-lo forte e feio. Primeira conclusão de La Palisse: os votos que o CDS foi buscar são frágeis. Numa próxima eleição, se houver um PSD forte, os votos a mais que o CDS obteve voltam para o PSD. Os centristas que me perdoem mas estes 11,7% dos votos ficaram a dever-se muito mais a demérito do PSD do que ao facto de Paulo Portas se ter rodeado de gente competente.
Toda a gente sabe que as minhas simpatias estão na esquerda democrática; nem toda a gente sabe, mas eu digo-o sem qualquer problema, que nutro alguma admiração por Sócrates: pela sua excelente retórica, pela classe, elegância e boa educação, pela capacidade de decisão e pela capacidade de dominar o show mediático (1). Enfim, se calhar para uns isto são só “pentelhos”, mas para mim têm a sua importância. Quando me ponho em (tentativas de) análise política, claro está, tento sempre afastar-me o mais que posso destas considerações “mais subjectivas”, mas apesar disso andava há algumas semanas a “fazer-me espécie” que Passos Coelho ganhasse, porque, com efeito, quando no meu espírito os punha lado a lado era óbvia a escolha, por muito que a imagem de Sócrates estivesse desgastada (e “desgastada” é um eufemismo). Mas a verdade é que Passos Coelho ganhou e bem. Pois é, era óbvio. E o povo é soberano, sereno e sábio. Conclusões a retirar: em condições normais, se os dois principais candidatos se limitarem a trocar acusações acerca de quem é a culpa de qualquer coisa, se limitarem a defender critérios de governação, nenhum apresentando um concreto programa, o povo escolhe, por muito mau que ele seja, o candidato que representa uma mudança, qualquer que ela seja. E faz bem. E este a meu ver foi um dos erros de Sócrates: achar que não era preciso ter um programa a sério.
O outro erro foi, de facto, não ter dito a verdade, embora como é óbvio isso não faça dele um mentiroso: quando se deparou com a crise, José Sócrates tinha duas opções. Ou abria o jogo: “meus amigos, passa-se isto, isto e isto e nós temos o plano assim e assado, vamos fazer isto e aquilo. Ou não abria, como não abriu. E não me venham com tretas: é perfeitamente compreensível a razão pela qual não abriu: “it’s the economy stupid”. A economia funciona na base da confiança, toda a gente o sabe. Sócrates quis aguentar, aguentar, aguentar, acorrer a todos os fogos. Deu fo**! Eu por mim teria escolhido a outra opção que era muito mais arriscada: é que podia muito bem acontecer que ele não conseguisse ter a capacidade mobilizadora necessária e depois caía tudo.
Oxalá, pois, como dizia a manchete de um jornal de hoje, que “tenhamos dado Passos em frente”. Oxalá que Passos não seja Passos Fedelho e, afinal, tire uns bons coelhos daquela cartola. Oxalá que daqui a uns meses não se ouça um “volta Sócrates, estás perdoado”.
E dito isto, resta-me fazer notar que tudo o que acabei de dizer não tem o mínimo interesse. Não passam de meras considerações que se limitam a brincar com a “espuma dos dias”. Não servem para nada. Muito mais preocupante é saber como é que vamos crescer economicamente o suficiente para cumprirmos as nossas obrigações para com os terríveis mercados.
(1) Nunca percebi porque é que alguns lhe apontam esta última característica como defeito, dizendo que “ele é só marketing” e coisas desse género! Ora bolas, então numa sociedade altamente mediatizada em que coisas sem importância se transformam em grandes casos e são empoladas até ao limite do imaginável não é bom que aquele que nos governa – em jeito de contrabalanço – demonstre capacidade de dominar os média?

“Quero viver os dias felizes que tenho à minha frente”