Maria José Nogueira Pinto

Maria José Nogueira Pinto

Maria José Nogueira Pinto (1952-2011)

‎”Portugal é um país de gente muito boa, tem muito mais gente boa do que gente má, tem muito mais gente capaz do que incapaz, tem muito mais gente séria do que desonesta, e é uma pena que os Portugueses não façam o que fazem todos os outros povos que é puxar para cima a sua auto-estima e a sua imagem.” Dixit.

Lá nisso, concordamos.

O erro de Sócrates

O que não se estava bem a perceber era como poderia o CDS crescer com o PSD a crescer também. Em termos gerais, quem vota à esquerda, não vota no CDS, portanto não seria à esquerda que o CDS iria buscar votos, mas sim à direita, isto é, ao PSD. Mas com um CDS com 13-15% dos votos, o PSD esvaziaria e o PS teria boas hipóteses de ganhar. Pois é, mas a deslocação de votos foi do PS para o PSD e do PSD para o CDS. O PS tem sempre por adquirido 28-30% e foi por esses mínimos que se ficou. E só não desceu abaixo disso, porque a malta da esquerda não gostou da viragem do Bloco à direita e decidiu penalizá-lo forte e feio. Primeira conclusão de La Palisse: os votos que o CDS foi buscar são frágeis. Numa próxima eleição, se houver um PSD forte, os votos a mais que o CDS obteve voltam para o PSD. Os centristas que me perdoem mas estes 11,7% dos votos ficaram a dever-se muito mais a demérito do PSD do que ao facto de Paulo Portas se ter rodeado de gente competente.

Toda a gente sabe que as minhas simpatias estão na esquerda democrática; nem toda a gente sabe, mas eu digo-o sem qualquer problema, que nutro alguma admiração por Sócrates: pela sua excelente retórica, pela classe, elegância e boa educação, pela capacidade de decisão e pela capacidade de dominar o show mediático (1). Enfim, se calhar para uns isto são só “pentelhos”, mas para mim têm a sua importância. Quando me ponho em (tentativas de) análise política, claro está, tento sempre afastar-me o mais que posso destas considerações “mais subjectivas”, mas apesar disso andava há algumas semanas a “fazer-me espécie” que Passos Coelho ganhasse, porque, com efeito, quando no meu espírito os punha lado a lado era óbvia a escolha, por muito que a imagem de Sócrates estivesse desgastada (e “desgastada” é um eufemismo). Mas a verdade é que Passos Coelho ganhou e bem. Pois é, era óbvio. E o povo é soberano, sereno e sábio. Conclusões a retirar: em condições normais, se os dois principais candidatos se limitarem a trocar acusações acerca de quem é a culpa de qualquer coisa, se limitarem a defender critérios de governação, nenhum apresentando um concreto programa, o povo escolhe, por muito mau que ele seja, o candidato que representa uma mudança, qualquer que ela seja. E faz bem. E este a meu ver foi um dos erros de Sócrates: achar que não era preciso ter um programa a sério.

O outro erro foi, de facto, não ter dito a verdade, embora como é óbvio isso não faça dele um mentiroso: quando se deparou com a crise, José Sócrates tinha duas opções. Ou abria o jogo: “meus amigos, passa-se isto, isto e isto e nós temos o plano assim e assado, vamos fazer isto e aquilo. Ou não abria, como não abriu. E não me venham com tretas: é perfeitamente compreensível a razão pela qual não abriu: “it’s the economy stupid”. A economia funciona na base da confiança, toda a gente o sabe. Sócrates quis aguentar, aguentar, aguentar, acorrer a todos os fogos. Deu fo**! Eu por mim teria escolhido a outra opção que era muito mais arriscada: é que podia muito bem acontecer que ele não conseguisse ter a capacidade mobilizadora necessária e depois caía tudo.

Oxalá, pois, como dizia a manchete de um jornal de hoje, que “tenhamos dado Passos em frente”. Oxalá que Passos não seja Passos Fedelho e, afinal, tire uns bons coelhos daquela cartola. Oxalá que daqui a uns meses não se ouça um “volta Sócrates, estás perdoado”.

E dito isto, resta-me fazer notar que tudo o que acabei de dizer não tem o mínimo interesse. Não passam de meras considerações que se limitam a brincar com a “espuma dos dias”. Não servem para nada. Muito mais preocupante é saber como é que vamos crescer economicamente o suficiente para cumprirmos as nossas obrigações para com os terríveis mercados.

(1) Nunca percebi porque é que alguns lhe apontam esta última característica como defeito, dizendo que “ele é só marketing” e coisas desse género! Ora bolas, então numa sociedade altamente mediatizada em que coisas sem importância se transformam em grandes casos e são empoladas até ao limite do imaginável não é bom que aquele que nos governa – em jeito de contrabalanço – demonstre capacidade de dominar os média?

“Quero viver os dias felizes que tenho à minha frente”

Sen na Fundação Champalimaud

Amartya Sen, prémio Nobel da Economia

Amartya Sen, prémio Nobel da Economia, vai estar no dia 15 na Fundação Champalimaud, para a apresentação do seu livro “Uma Ideia de Justiça“. Com direito a autógrafos no final e tudo.

Este ”Uma Ideia de Justiça” é a obra da vida de Amartya Sen. Não se situa nem no âmbito do Direito, nem no âmbito da Economia, mas antes num prius destas duas áreas: a Filosofia.

De origem Indiana, mas radicado há muitos anos nos Estados Unidos, Sen teve o privilégio de privar com Rawls e é precisamente a partir das teorias rawlsianas, que muito respeitosamente critica, que o Autor constrói aquelas que são as “instituições justas”. De uma notável sensibilidade, lucidez e bom senso, Sen será, sem dúvida, amplamente citado nas próximas centenas de anos.

A não perder!

O cartaz aqui. Mais informações aqui.

Estamos à rasca mas somos cidadãos

Hoje saíram à Rua 300 mil pessoas. Jovens, velhos, crianças e famílias juntaram-se um pouco por todo o país numa manifestação que, efectivamente, foi “(quase) apartidária, laica e pacífica”. Gritou-se contra Sócrates, contra o Governo, contra Sócrates, contra Merkel e contra Sócrates. Gritou-se também contra Passos Fedelho (rectius, Coelho), contra a política de direita e contra Paulo “Submarinos” Portas. Gritou-se que o povo unido jamais será vencido. Gritou-se – com Jel – luta, camarada, luta. Perguntou-se “então e o povo, pá”. Gritou-se por mais emprego. Enfim, uma geração resolveu sair da casinha dos pais, mas trouxe os pais consigo, e gritou por tudo e mais alguma coisa (é mesmo verdade que se juntarmos dois portugueses, temos três pontos de vista!). Gritou-se por tudo e mais alguma coisa e voltou a gritar-se por tudo e mais alguma coisa, num grito de alma que se pode resumir nas palavras de um senhor que foi entrevistado para a RTP: “Eu já não tenho físico para manifestações, mas hoje resolvi vir, porque estou tão farto de ver sempre as mesmas caras, sempre as mesmas promessas. O povo está cansado, tão cansado”.

Penso que o povo quer, em suma, que a economia (lato senso) funcione, arranque, desentorpeça. Não lhe interessa como, nem por que meios, desde que não tenha de ser ele a pagar a factura de um serviço que não consumiu e do qual não é – porque não é – responsável. Em última análise, poder-se-ia dizer que nós – o povo – somos todos responsáveis pelo rumo, pelo caminho que o nosso país trilha, já que um país é um conjunto de vontades, atitudes e comportamentos individuais e, por outro lado, somo livres de escolher os nossos governantes. Tal afirmação só em parte é verdade. Não há liberdade de escolha quando X é igual a Y. Não há vontade, atitude ou comportamento individual que se desenvolva sem um chão, uma base, para isso. Se eu quiser navegar num rio, tenho de ter um barco, mas sobretudo tenho de ter o rio.

Que ninguém diga que quem foi à manifestação não devia ter ido ou não sabia o que queria. Toda a gente que ali estava sabia o que queria: queria desabafar. Mas o mais interessante – acho eu – é que talvez sem querer, disseram pacificamente a coisa mais importante de todas: o povo está unido, quer fazer parte da solução, estará à altura dos acontecimentos; quando é que vocês, miseráveis “políticos profissionais”, vão perceber que não é tempo de politiquice, mas sim de união, que não é tempo de “boycracia”, que não é tempo de brincar à política (como o têm feito desde infantes nos recreios das juventudes partidárias), mas sim de trabalhar, trabalhar, trabalhar?

Em suma, os portugueses mostraram hoje que não são gente rasca, apesar de estarem à rasquinha. Mostraram pacificamente que sabem muito bem o significado da palavra “cidadania”. Sócrates e Coelho (mas também Portas, Louçã e Jerónimo) têm de decidir se querem ficar na história de Portugal como mais um/dois primeiro(s)-ministro(s) ou se preferem ser lembrados – provavelmente por muito mais tempo até – como aqueles que tiveram a fibra suficiente para saber estar à altura dos acontecimentos, deixar a pollítica rasca de lado e, juntos nas suas diferenças, conseguir levantar Portugal.